Profissionais de Educação Física impulsionam a inclusão em MT

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Empreendedorismo na Educação Física transforma vidas e abre um mercado promissor no atendimento ao público atípico em Mato Grosso

Empreender, para muitos profissionais de Educação Física em Mato Grosso, deixou de ser apenas uma alternativa de carreira para se tornar uma resposta concreta a uma demanda social crescente: o atendimento ao público atípico. É nesse cenário, onde propósito e oportunidade se encontram, que histórias como a de Davi ganham significado. Diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA), ele levou tempo até vencer o medo da água. A mãe, Gislene Oliveira Cardoso, insistiu. Entre tentativas, pausas e recomeços, repetia para si mesma:

Davi mergulhando

“Um dia ele vai conseguir.”

Hoje, o menino mergulha e a conquista simboliza mais do que aprendizado motor. Representa autonomia, pertencimento e qualidade de vida.

Histórias como essa deixam de ser exceção e passam a refletir uma transformação social mais ampla. Pela primeira vez, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mensurou a população com autismo no país e identificou cerca de 2,4 milhões de brasileiros com diagnóstico de TEA, o equivalente a 1,2% da população. O dado revela não apenas a dimensão do público, mas também uma demanda crescente por serviços especializados. Em paralelo, o aumento dos diagnósticos, especialmente na infância, tem impulsionado novos modelos de atuação profissional, entre eles, o empreendedorismo na Educação Física voltado ao atendimento inclusivo.

O empreendedorismo que nasce da necessidade real

Aulas inclusivas

Em Campo Verde (139 km de Cuiabá), a profissional de Educação Física Janete Scain percebeu esse movimento antes mesmo de ele ganhar força estatística. À frente da escola de natação Espaço Azul, ela começou a notar o aumento na procura por atendimentos voltados a crianças atípicas. A demanda não era apenas quantitativa, era qualitativa. As famílias buscavam acolhimento, preparo técnico e, sobretudo, resultados.

“A gente entendeu que precisava fazer diferente”, frisou Janete.

O início, no entanto, foi marcado por desafios estruturais importantes. A formação acadêmica, segundo ela, não contemplava o preparo necessário para atuar com o público atípico, exigindo uma busca contínua por capacitação e orientação sobre gestão do negócio. Nesse processo, Janete passou a participar de reuniões e momentos de orientação promovidos pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Mato Grosso (Sebrae-MT), onde encontrou apoio para estruturar melhor o empreendimento e compreender caminhos para consolidar o serviço especializado. “Foi preciso estudar fora, entender cada criança, cada família, cada realidade. E isso continua até hoje”, explica.

A prática também trouxe obstáculos cotidianos: comportamentos desafiadores, resistência inicial das crianças e, muitas vezes, a insegurança dos próprios pais. Ainda assim, o que sustenta o trabalho vai além da técnica. “É o amor, a empatia, o se colocar no lugar do outro”, afirma Scain.

Os resultados aparecem de forma concreta. Crianças que antes recusavam a água passam a interagir, desenvolver habilidades e construir confiança. “Elas chegam sem querer entrar na piscina e depois não querem sair. Isso não tem preço”, completa.

É nesse ponto que o negócio se consolida: quando o serviço deixa de ser apenas uma atividade e passa a ser percebido como transformação.


Da escuta à construção de um novo modelo de negócio

1ª academia inclusiva infantil de Cuiabá

Se em Campo Verde o movimento surgiu como resposta à demanda, em Cuiabá ele ganhou forma como proposta inovadora. A profissional Thatyane Amorim, 35, identificou, ainda nos atendimentos domiciliares e em clínicas multidisciplinares, um padrão recorrente nos relatos das famílias: a sensação de exclusão dentro de ambientes que, em teoria, deveriam promover inclusão.

“Os pais diziam que os filhos estavam na aula, mas não estavam inseridos. Aquilo me marcou profundamente”

“É preciso ter sensibilidade”

A partir dessa escuta, surgiu a decisão de criar um espaço próprio, a academia Tia Thaty, uma unidade infantil com proposta inclusiva, capaz de atender crianças típicas e atípicas com um olhar individualizado. O desafio, no entanto, não estava apenas na estrutura física, mas na construção de uma equipe alinhada ao propósito. “Eu precisava de profissionais que entendessem que não era só exercício. Era desenvolvimento, comportamento, família, contexto.”

A experiência prática também revelou lacunas importantes na formação tradicional. “A Educação Física, sozinha, não prepara para esse atendimento. É preciso ampliar o conhecimento, entender o neurodesenvolvimento, o comportamento e, principalmente, ter sensibilidade.”

 

Com o tempo, os resultados passaram a validar o modelo. Pequenas conquistas, muitas vezes imperceptíveis para quem está de fora, tornam-se marcos significativos para as famílias. “Quando uma criança consegue brincar no parquinho ou se vestir sozinha, isso muda a vida dela e de quem está ao redor”, afirma tia Thaty.

 

A nova geração que empreende com propósito

Thaynara Corrêa

Representando uma nova geração de profissionais, Thaynara Corrêa, 31, encontrou no estágio o ponto de inflexão da sua trajetória. O contato com o público atípico revelou uma dimensão da Educação Física que vai além da prescrição de exercícios.

“O que me marcou foi o vínculo. Antes de qualquer movimento, você precisa conquistar a criança. É isso que faz tudo acontecer”, explica.

Mesmo recém-formada, decidiu empreender, um passo que veio acompanhado de inseguranças e desafios, especialmente na gestão do negócio. “A parte burocrática, financeira, administrativa… tudo isso eu tive que aprender na prática”, relata.

“O que me marcou foi o vínculo”

Sua proposta une dois universos: o crossfit e a psicomotricidade. Ao levar o atendimento para dentro de um ambiente esportivo, ela rompe com o modelo tradicionalmente clínico e cria um espaço mais dinâmico, sensorial e engajador. “Aqui, a criança não sente que está em terapia. Ela se movimenta, explora, se envolve.”

O atendimento, no entanto, exige adaptação constante. Cada detalhe importa: o ambiente, o tom de voz, os estímulos, o estado emocional da criança naquele dia. “Não existe padrão. Existe escuta”, frisa a jovem empreendedora.

Os resultados, novamente, extrapolam o espaço de atendimento. “Quando os pais dizem que o filho está participando mais na escola ou socializando melhor, é isso que mostra que estamos no caminho certo”, conclui a profissional.

Um campo em expansão — e ainda em construção

Presidente do CREF17, Fabi Moraes

O crescimento desse segmento acompanha mudanças estruturais na sociedade. O aumento dos diagnósticos, a ampliação do debate sobre inclusão e a maior conscientização das famílias têm impulsionado a busca por serviços especializados. Ainda assim, o cenário revela um campo em construção, que exige qualificação constante e responsabilidade profissional.

Para a presidente do Conselho Regional de Educação Física da 17ª Região (CREF17/MT), Fabi Moraes, esse movimento reforça o papel estratégico da profissão.

“O atendimento ao público atípico exige preparo técnico, sensibilidade e compromisso ético. O profissional de Educação Física tem uma atuação fundamental na promoção da inclusão e na melhoria da qualidade de vida dessas pessoas”

Além do impacto social, há também uma dimensão econômica relevante. O crescimento da demanda abre espaço para novos negócios, amplia o mercado de atuação e fortalece a cadeia de serviços ligados à saúde e ao desenvolvimento humano. “Estamos diante de um segmento em expansão, que alia propósito e oportunidade. Quando bem estruturado, esse tipo de empreendimento gera renda, emprego e, ao mesmo tempo, transforma realidades”, acrescenta.

Empreender com propósito

Para o Sebrae MT , o avanço do atendimento ao público atípico representa uma convergência entre demanda social e oportunidade de negócio. No estado, o cenário é considerado promissor, especialmente nas áreas de atividade física adaptada, saúde e educação.

“Existe uma demanda crescente por serviços especializados, o que abre espaço para empreendimentos que unam inovação, impacto social e sustentabilidade econômica”, afirma a analista de Inclusão Socioprodutiva do Sebrae-MT, Danielle de Jesus Silva Rodrigues.

Segundo ela, o diferencial está na capacidade de estruturar o negócio de forma estratégica. Planejamento, definição de público, organização financeira e qualificação contínua são elementos fundamentais para transformar vocação em empreendimento sustentável.

Mais do que atender um nicho, trata-se de responder a uma necessidade social urgente — com qualidade, responsabilidade e visão de futuro.

Crescimento do público atípico impulsiona inclusão e empreendedorismo

O crescimento do público atípico no Brasil e no mundo tem redesenhado não apenas o campo da saúde e da educação, mas também aberto novas frentes de atuação profissional e empreendedorismo. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a partir do Censo 2022, apontam que cerca de 2,4 milhões de brasileiros possuem diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), o que representa aproximadamente 1,2% da população. Trata-se da primeira vez que o país mensura oficialmente esse público, evidenciando uma demanda que já vinha sendo percebida na prática por profissionais de diversas áreas.

No cenário internacional, o avanço também é significativo. Estudos recentes do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), dos Estados Unidos, indicam que 1 em cada 32 crianças está dentro do espectro autista, reforçando uma tendência global de aumento nos diagnósticos, especialmente na infância — fase em que intervenções voltadas ao desenvolvimento motor, cognitivo e social são mais procuradas.

No Brasil, esse movimento já impacta diretamente o ambiente educacional. De acordo com dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o número de estudantes com autismo na educação básica cresceu 48% em apenas um ano, sinalizando não apenas maior identificação dos casos, mas também a necessidade urgente de serviços especializados e profissionais qualificados para atender essa população.

Esse cenário evidencia uma equação clara: o aumento da demanda, aliado à ainda limitada oferta de serviços especializados — especialmente fora dos grandes centros — configura um campo fértil para o desenvolvimento de novos negócios. Nesse contexto, áreas como a Educação Física ganham protagonismo, ao oferecer intervenções que contribuem diretamente para o desenvolvimento global, a inclusão social e a autonomia de pessoas atípicas.

Mais do que um dado estatístico, esse crescimento revela uma transformação estrutural na sociedade. E, ao mesmo tempo, aponta para um caminho em expansão, onde inclusão e empreendedorismo caminham lado a lado.

*Todas as imagens contidas neste material são de arquivo pessoal e foram cedidas pelas entrevistadas.

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